quinta-feira, 1 de julho de 2010

Noel arrastava os moveis pela sala, combinava e reajustava, procurava ordem como quem tenta decifrar códigos ocultos. Parados numa posição estranhamente sinestésica, pontuados de dois a dois, como quem representa os números agrupados no verde. Arrastava-se na parede apoiando os joelhos serrados em “V”, epifania repentina, as formas, os espaços, tudo convergia para o sensível sentido que há no nada. Da mesma forma, as texturas possuem um padrão quase musical. Noel desliza os dedos sobre o chão, nem precisa olhar enquanto deduz o previsível trajeto dos azulejos. Silêncio. Caído junto ao vértice inferior do hexaedro, à constante sensação de vôo, suspenso numa repulsão psicológica, não se move. Feições extasiantes.

Noel abre lentamente os olhos. Apoiando as mãos no chão, vira lentamente a nuca em direção à vidraça que da para um slogan de sabão em pó. Ainda é noite. Reflete alguns instantes, mas permanece imóvel como John Constantine na cena final do filem homônimo.

Por do Sol, Por do Sol, repete Noel enquanto traceja com os dedos: MCMLXXX, MCMXM, MXM!

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